Porque não comemorei a chegada da Forever 21 em Salvador

(publicado originalmente no site canseideserbasica.com.br, em 30/06/2016)

Vocês devem ter visto: a Forever 21 vai abrir sua primeira loja em Salvador. Eu fiquei sabendo por uma amiga, que postou a notícia no Facebook. Muitos comentários e reações de comemoração – menos eu, que só consegui postar uma carinha triste com lagriminha no olho. Puxa, mais uma fast fashion.

Para quem está meio por fora: a Forever 21 é uma das maiores varejistas de moda do mundo. Tem mais de 550 lojas em 34 países, uns 35 mil funcionários e faturamento estimado de US$3,7 bi (esses números podem estar desatualizados, hein). Do total de peças vendidas, 30% são produzidas em Los Angeles e 70% em países como China, Paquistão e Vietnã.

Eu fui pesquisar um pouco da história da Forever 21 por aí e descobri que não tenho nada contra a marca especificamente. Pelo contrário, achei até maneira a história: a Forever 21 foi criada em 1984 por um casal de imigrantes coreanos sem grana (que ironia), Do-Wong Chang e Jin Sook – a primeira loja tinha menos de 80 metros quadrados e já no primeiro ano eles faturaram US$ 700 mil.

Imagina o duro que eles deram? Quando me dei conta já estava imaginando o casal trabalhando noites a fio para enriquecer, o sonho americano piscando em neon na minha cabeça. Hoje, Chang e Sook formam um dos casais mais ricos do mundo – é a Forbes que está dizendo.

Então, a minha bronca não é com a Forever 21. É com o sistema Fast Fashion – moda rápida, barata, descartável. De um lado, gente ávida por promoções, descontos, pechinchas, tentando levar pra casa camisetas (mais uma), vestido (outro), sapato (para fazer companhia aquele que já está lá parado).

E quem está do outro lado? Quem costurou, pregou o zíper, fez a bainha? Em que condições? Como é a vida da pessoa que trabalha para que eu ande na moda? Isso é assunto para mais de metro, mas o que a gente sabe com certeza é: a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, só perdendo para o petróleo. Os postos de trabalho abertos por gigantes da moda na Ásia envolvem exploração, jornadas de trabalho exaustivas e salários irrisórios. Tem certeza que você fica feliz com a inauguração de mais uma fast fashion? Eu não.

Apesar disso, faço de tudo para olhar o lado bom – uma loja Forever 21 em Salvador vai gerar empregos para (principalmente) mulheres (de acordo com pesquisa do DIEESE publicada em maio, o desemprego na Região Metropolitana de Salvador aumentou por quatro meses consecutivos). Os desafios que o nosso (sim, nosso: meu e seu também) sistema nos colocam são grandes e precisamos com urgência de novas perspectivas e olhares. Olhar de raio x para enxergar além da etiqueta de roupa.