Sobre modas & modinhas

Apesar de ser egressa da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, eu não tenho nada contra modinhas.

É sério: só quem estudou na FACOM / UFBA, pelo menos na época em que estudei, sabe a dimensão disso que estou falando. Se havia uma banda favorita – por exemplo, a minha era a Cordel do Fogo Encantado – que ficava famosa depois de muito ralar, o julgamento vinha rápido: “essa banda? era boa antes de todo mundo conhecer”. Ou se aquele boteco pé-sujo que só você e uns poucos broders conheciam ganhava novos clientes, a gente parava de ir. Ou ia só para desfrutar do gosto de dizer que “já conhecia antes de todo mundo”.

Era um prazer em pertencer a um grupo seleto, que conhece coisas que ninguém mais conhece, e ser capaz de antecipar o que vai estourar.

– Ah, você gosta do Cordel do Fogo Encantado? Conheço há tempo, já foi boa, hoje deu uma caída, ficou famosa demais. Mas olha, no interior (digamos) do Rio Grande do Norte tem uma banda…

Ah, vá: era divertido.

Mas, como eu dizia: (hoje) eu não tenho nada contra modinhas. Ou como quer que se chame algo que “de repente” ganhe uma dimensão de massa (normalmente, depois de ralar muito na obscuridade pois, como é sabido, para se tornar um sucesso da noite para o dia é preciso trabalhar por, sei lá, uns cinco anos – seja tocando de graça, fazendo palestras pro-bono ou sendo o administrador, garçom, cozinheiro e serviços gerais do próprio estabelecimento.)

Gosto de fazer essa reflexão.

Boa parte da minha vida profissional foi em organizações não-governamentais, e muito próxima de movimentos sociais. Já estive mais ou menos próxima, em momentos diferentes da vida, do movimento pela democratização da comunicação,  feminismo, movimento LGBTT, ambientalismo, defesa dos direitos das crianças e adolescentes, melhoria da qualidade da educação pública, veganismo, direitos da juventude, pessoas com deficiência e por aí vai… E quando a gente é de um movimento acaba se solidarizando com os outros – there’s some treta aqui e ali, OK. Mas tá todo mundo no mesmo barco.

Vi coisas fodas-lindas-incríveis feita por gente bem maluca – no melhor sentido da palavra – que não apenas acreditava, como de fato conseguiu mudar o mundo: Na forma da criação de organizações, da aprovação de leis ou na pressão pública para que governantes adotassem determinada pauta. Tudo pode ser, se quiser será, sonho sempre vem pra quem sonhar.

Muitos desses movimentos tem em comum um desejo: conscientizar. Para que se entenda a comunicação como direito humano, para o fim da cultura de estupro ou para o fato de que os animais sofrem, não importa. Para tudo, as pessoas precisam tomar consciência.

Veja bem, eu não vou ao dicionário agora procurar o significado “tomar consciência”. Imagino que deve fazer sentido com o que os movimentos sociais pregam. Mas acho que “consciência” é uma palavra que, de tão usada, deixou de fazer sentido. “Tomar consciência”, então, nem se fala: Várias vezes me perguntei onde acharia uma latinha de consciência, bem gelada, pra dar um gole na danada e acabar de vez com o problema.

“Consciência” virou modinha e pluft, morreu. “Vocês estão tomando consciência disso agora? Vocês não viram nada, na época em que eu tomava consciência…”

Vamos lá, o que significa ter consciência de? É saber alguma coisa?

Nesse cenário, a tomada de consciência aparece como um feroz opositor da modinha – esse fenômeno em que, digamos, a gente vê um tema ao mesmo tempo em uma novela, na boca de uma celebridade e em uma propaganda bem feita e pronto: todo mundo fala, quer, ama / é aquilo ali.

Está montado o embate da modinha versus promotores da consciência. A celebridade que se declarou vegana e levantou uma onda de news comedores de tofu; o feminismo no programa da Globo que despertou fãs para o assunto; a marca de roupas “ecológica” que fez uma galera aderir à sustentabilidade (outra palavra que perdeu o sentido – assunto para outro post): modinhas. E qual o problema com elas?

Eu não sei. Mas posso supor qual é a resposta. A modinha, por força da popularização, torna o debate mais superficial ou mesmo desnecessário. A modinha que se preza, em tempos de redes sociais, não abre mão dos likes – não basta aderir à modinha, tem que postar. E modinha que é modinha passa, precisa dar lugar à próxima, que chegará tão arrebatadora quanto a primeira.

Para cada modinha, há um time de promotores da consciência, chamando a atenção para o fato de que o assunto é muito mais sério do que parece e não pode ser resumido a um post em redes sociais; de que aquilo não é suficiente ou que a celebridade a promovê-la não é tão bacana quanto parece. E, é claro, lembrando que eles já estavam falando daquilo muito antes e só agora vocês estão se dando conta disso.

Muito provavelmente, os promotores de consciência estão com a razão: não dá pra aprofundar o debate ou refletir sobre uma mudança estrutural da sociedade em meio a modinhas. Mesmo assim, sigo uma observadora e entusiasta das modinhas “do bem”, se me permitem. Sempre que um assunto que estava restrito aos movimentos sociais, academia ou iniciados em geral ganha as ruas, mesmo que na forma de uma onda breve, ganhamos alguns centímetros em uma sociedade de costumes rígidos demais.

Diante da modinha da sustentabilidade – que não é mais modinha há pelo menos uns vinte anos – sem dúvida foram conquistados espaços e adeptos para essa que talvez seja a maior das nossas causas: mantermo-nos todos vivos neste planeta, com menos sofrimento e mais justiça. Foi graças à modinha da sustentabilidade que eu, uma criança quando da Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento), tive meu primeiro contato com o assunto e estou aqui hoje, trabalhando com isso.

Não sou ingênua (tá, só um pouco): cooptação existe. O marketing se apropria de tudo para vender mais do mesmo. Greenwashing (a adoção de expressões, imagens e aparência de “ecológico” com vistas a enganar ou, na melhor das hipóteses, confundir o consumidor a respeito dos atributos do produto) e outras “lavagens” existem. Ao mesmo tempo, há uma turma de gente propondo o caminho inverso: apropriar-se antes de ser apropriado. Ou, como eles gostam de dizer, “hackear” o sistema. Para isso, aproveitar o potencial das “modinhas” é fundamental.

Cada vez que uma nova identidade – de gênero, sexual, de pertencimento étnico, religiosa – ganha as telas na forma de “novidade”, um número maior de pessoas deixa de ser ‘esquisita’ para as demais e se sente mais facilmente confortável em sua própria pele. Visibilidade gera reconhecimento, pertencimento, quem sabe até aceitação. Não é tudo, mas em um mundo em que silenciamento mata, é alguma coisa.

Então, da próxima vez que a sua banda favorita – aquela que só você e aquela meia dúzia conheciam – aparecer, sei lá, no Faustão (aconteceu comigo – até comercial de cervejaria o Cordel do Fogo Encantado fez), não reclame. Os caras ralaram um bocado e merecem desfrutar de um pouco de grana, depois de tocar de graça nos bares da vida. Se não der pra usar essa modinha para levantar uma bandeira que valha a pena, faça como eu e os meus amigos de faculdade: desfrute do prazer de ter conhecido antes de todo mundo.