C&A é única rede varejista com avaliação positiva no Moda Livre

Aqui no Justa Moda defendemos a máxima de comprar de quem faz ser melhor do que comprar da China. E é uma verdade: a economia gira na esfera que precisa da grana, valorizamos habilidades do pequeno produtor e ainda estimulamos a sustentabilidade. Por outro lado, também reconhecemos que não dá para largar de vez as grandes varejistas para seguir o caminho do pequeno empreendedor, não é mesmo? As facilidades e os produtos baratos muitas vezes são imbatíveis. Mas dá, sim, para comprarmos de quem faz o mínimo possível no que tange o respeito ao produtor dos seus lucros.

A C&A, por exemplo, é a única fast fashion melhor avaliada (com a cor verde) quando se trata de mecanismos de acompanhamento da cadeira produtiva e de não haver envolvimento com, por exemplo, trabalho análogo à escravidão. O dado foi levantdo pela equipe do aplicativo Moda Livre, da ONG Repórter Brasil. O software avalias as empresas com base nas respostas de um questionário, a partir de quatro indicadores: políticas, monitoramento, transparência e histórico.

Aquelas que demonstram possuir esse mecanismo de acompanhamento da sua cadeia produtiva, mas que já estiveram envolvidas em caso de trabalho escravo ou precisam melhorar suas ferramentas recebem avaliação intermediária (ou cor amarela). Nesse critério se enquadram a Riachuelo, a Renner, a Marisa e a Zara.

Cômodo em que vivia uma família em um dos alojamentos da oficina terceirizada pela Renner (Foto: Igor Ojeda)

Em 2016, a Riachuelo foi condenada a pagar pensão vitalícia a uma de suas ex-funcionárias devido às precárias condições de trabalho, com metas de produção que abusavam dos limites físicos e psicológicos das costureiras. Para se ter ideia, as funcionárias eram pressionadas a produzir cerca de mil peças de bainha por jornada; colocar elástico em 500 calças por hora e até costurar 300 bolsos pelo mesmo período. Na ação, a funcionária relatou que já deixou de beber água para diminuir suas idas ao banheiro – que eram controladas pelo encarregado por meio de fichas (veja mais aqui).

Autoridades trabalhistas já responsabilizaram a Renner por exploar 37 costureiros bolivianos em regime de escravidão contemporânea em uma oficina de costura terceirizada em São Paulo. Os alojamentos eram degradantes, as jornadas levavam à exaustão e parte dos funcionários estava submetida à servidão por dívida. Na ocasião, foram resgatados 21 homens, 15 mulheres e uma adolescente. Este caso aconteceu em 2014.

Foi também por más condições de trabalho que a Marisa foi envolvida na lista de empresas com histórico questionável. Há cerca de dez anos, 16 bolivianos foram encontrados produzindo em condições análogas à escravidão na Indústria de Comércio e Roupas CSV Ltda, uma das confecções que produzem para o grupo. A Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo sustentou que a empresa fosse responsabilizada por todas as etapas da sua cadeia produtiva, mas em 2013 a juíza Andréa Grossmann, do Tribunal do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), absolveu as Lojas Marisa em primeira instância, já que não havia vínculo empregatício entre os trabalhadores e o grupo (entenda aqui).

A Zara também tem avaliação intermediária no aplicativo Moda Livre. Em 2011, o Ministério do Trabalho e Emprego resgatou 15 trabalhadores imigrantes costurando peças da marca em três oficinas terceirizadas em Americana e São Paulo, ambas em São Paulo (veja aqui). A marca chegou a admitir a condição análoga à escravidão durante CPI do Trabalho Escravo, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Linha de produção em pequena oficina tercerizada no sertão atende à demanda da Guararapes, do grupo Riachuelo (Foto: Lilo Clareto)

Entre as fast fashions mais populares aqui no Brasil, a única com pior avaliação é a Forever 21. Isso levanta duas possibilidades: ou a empresa sequer possui mecanismos para acompanhar a produção das suas peças ou ela tem histórico desfavorável em relação às condições de trabalho. Uma terceira opção deve ser considerada também: a Forever 21 pode não ter respondido ao questionário do Moda Livre, o que deixa no ar a dúvida. Por que será?

De todo modo, a gente já sabe com quem procurar informações sobre as marcas que nos atendem. Mais de 100 empresas foram avaliadas pelo aplicativo Moda Livre. Outros detalhes sobre essa realidade podem ser discutidos durante o Fashion Revolution Week Salvador, entre 26 e 29 de abril. André Campos, um dos coordenadores da ONG Repórter Brasil, responsável pelo app, virá para participar de um bate-papo bacana sobre o assunto. Quem já marca presença?!